Situação fiscal e eleição antecipada afastam estrangeiros de privatizações

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Investidores estrangeiros que avaliavam ingressar no Brasil passaram a rever o apetite por projetos, principalmente de infraestrutura, por causa da deterioração do ambiente fiscal e econômico, em boa parte motivada pela antecipação da disputa eleitoral de 2022.

Fundos de investimento, de pensão e operadores internacionais estudavam as propostas para participar das próximas concorrências. No entanto, eles decidiram esperar pelo próximo presidente.

Segundo assessores e advogados que cuidam dos interesses de investidores, eles demonstram desconfiança do governo atual, que permitiu danos ambientais severos, abandonou reformas estruturais e hoje promove gastança focado na reeleição.

Também se preocupam com o clima de polarização política e entendem que a piora da economia pode ser aprofundada a depender de quem vença a eleição de 2022.

Para esse grupo, que prefere se manter em anonimato, os juros futuros, já acima de 10%, estão em tendência de alta —reflexo da incerteza política—, o câmbio pode girar em torno de R$ 5,50 (com o real se desvalorizando mais ante o dólar) e a inflação seguirá em alta.

Se por um lado o dólar elevado torna os ativos no Brasil mais baratos, por outro exige mais faturamento em real para fazer frente ao investimento com recursos captados em moeda estrangeira. Para eles, tudo isso pode prejudicar o retorno dos investimentos.

Além disso, amparam-se em projeções de economistas que indicam um crescimento da economia em patamares baixos, o que afetará o consumo.

Se antes apostavam no aquecimento da atividade econômica por causa da reforma tributária, agora veem um cenário pior: dizem que, sem mudanças nesse campo, o governo não terá saída a não ser aumentar impostos já que, pelo lado das despesas, não houve avanços.

Com os últimos embates no Congresso em torno da reforma tributária, decidiram jogar a toalha e consideram que o Brasil não é um país para novatos.

“Eles acham ainda que a situação atual indica a volta do populismo, depois de tudo o que viram neste ano”, diz Claudio Frischtak, fundador da Inter.B, consultoria internacional de negócios.

Segundo Frischtak, esses investidores consideram que a polarização política —seja com Bolsonaro, seja com Lula no comando em 2023— trará um possível controle estatal maior sobre a economia, refletindo sobre tarifas e serviços.

Mencionam, por exemplo, a tentativa do governo atual de controle da política de preços da Petrobras e as interferências no Banco do Brasil.

“O episódio do ministro da Economia, Paulo Guedes, questionando as pesquisas do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] caiu muito mal”, acrescenta Frischtak.

“Os investidores que eu assessoro se lembraram imediatamente da Cristina Kirchner [que manipulou o cálculo da inflação na Argentina]. Apesar de a crítica se referir às pesquisas de desemprego, o IBGE calcula o IPCA e o INPC, indicadores importantes da inflação no país. Essa turma está ligando os pontos.”

Em contrapartida, os grupos que já atuam no país continuam atraídos pelas próximas rodadas de concessões e privatizações. “Os novos entrantes devem ficar fora da infraestrutura, mas os tradicionais continuam olhando”, diz Marcos Ganut, diretor de Infraestrutura da Alvarez & Marsal.

No entanto, segundo Ganut, a desvalorização do real torna os projetos mais atrativos para os estrangeiros. Para ele, quem se prepara para concorrer nos leilões está mais preocupado em saber qual será a política econômica a partir de 2023.

“Os projetos de infraestrutura são uma opção interessante de renda fixa [fluxo de receitas]”, diz Ganut. “No ano passado, investidores passaram estudando projetos no mundo todo como alternativa a juros baixos em outros países. Aqui temos projetos com riscos bem definidos para atrair esses recursos.”

Analistas de infraestrutura consideram que os projetos motivados pelo agronegócio terão sucesso. “O transporte de carga, motivado pela produção agrícola, foi o que levou o Brasil a ter sido no ano passado o país que mais gerou investimentos de infraestrutura”, diz Frederico Turolla, sócio da consultoria Pezco Economics.

Com informações de Julio Wiziack/Folhapress

 

 

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