ENEM: Bolsonaro pediu que trocasse “Golpe de 1964” por “Revolução”, dizem servidores

Brazil's President Jair Bolsonaro delivers a press conference in Brasilia, Brazil, on April 24, 2020. - Brazilian Minister of Justice and Public Security, Sergio Moro, announce his resignation on Friday after Brazilian President Jair Bolsonaro dismissed the head of the Brazilian Federal Police, according to sources close to the popular former anti-corruption judge. (Photo by EVARISTO SA / AFP)

O desejo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de deixar o Enem com “a cara do governo” incluiu um pedido, feito ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, para que houve questões que tratassem o Golpe Militar de 1964 como uma revolução.

Às vésperas do exame, o governo passa por uma crise que envolve denúncias de interferência em conteúdo e assédio moral de servidores. O pedido de Bolsonaro teria ocorrido no primeiro semestre, segundo relatos de integrantes do governo.

Ribeiro chegou a comentar a fala com equipes do MEC (Ministério da Educação) e do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), mas não levou o pedido adiante de modo prático, uma vez que os itens passam por longo processo de elaboração.

Capitão reformado, Bolsonaro é defensor da ditadura militar (1964-1985), elogia torturadores e tem histórico de criticar o Enem por uma suposta abordagem de esquerda. Após denúncias de interferência na prova por parte dos servidores, ele disse nesta semana que o exame começava a ficar com a “cara do governo” e voltou a criticar a prova.

A visão de Bolsonaro contaria os fatos e a historiografia, que apontam o movimento de 1964 como um golpe militar ou civil-militar, na visão de alguns historiadores.

Desde 2019, primeiro ano do atual governo, nenhuma questão sobre o a ditadura caiu no Enem —de modo inédito desde que o exame é aplicado. Questionados, MEC, Inep e Palácio do Planalto não responderam.

Por causa da pressão por uma prova com a “cara do governo”, servidores envolvidos com o Enem classificam o clima atual como desesperador: há temor com relação a possíveis perseguições e punições caso o exame desagrade Bolsonaro.

No último Enem, por exemplo, o presidente criticou uma questão que falava da diferença salarial entre os jogadores Neymar e Marta. Para ele, o tema seria ideológico.

Segundo servidores ouvidos pela reportagem, o presidente do Inep, Danilo Dupas Ribeiro, e o ministro não teriam tido acesso à prova durante a elaboração e nem à versão final. Também não teriam determinado exclusão de itens específicos, apesar da pressão pública e velada para enquadrar o exame e evitar questões consideradas de esquerda.

A Frente Parlamentar Mista de Educação tem cobrado o MEC e vai realizar, com entidades estudantis (Ubes e UNE), uma blitz para acompanhar a aplicação do Enem.

“A preocupação maior é com desmonte profundo que o governo busca no Inep e que fica claro na prova do Enem”, disse o deputado Professor Israel Batista (PV-DF), presidente da frente.

Desde o início deste governo há pressão para que a prova elimine temas que o presidente e apoiadores conservadores entendem como inadequados —por exemplo, ditadura, questões de gênero e até racismo.

A pressão ganhou proporções inéditas na gestão de Dupas Ribeiro à frente do Inep e de Milton Ribeiro no MEC. Ambos reforçaram recados e pressões: questões entendidas como subjetivas teriam de ser suprimidas.

Segundo relatos colhidos pela reportagem, as equipes envolvidas na elaboração da prova buscaram equilíbrio entre essa pressão, o atendimento à matriz de conteúdos do Enem e a coerência estatística da prova.

No meio do ano, uma nota técnica foi elaborada pela área responsável pelo Enem para determinar que a prova respeite essa matriz. Isso foi interpretado como um respaldo aos técnicos na escolha das questões técnica e pedagogicamente melhores.

Paulo Saldaña/Folhapress

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.