Os agentes do mercado financeiro esperam que o Copom (Comitê de Política Monetária) mantenha inalterada a taxa básica de juros (Selic), em 15% ao ano, pela quinta vez seguida, adiando para março a expectativa de início do ciclo de cortes.
No primeiro encontro do ano, na próxima quarta-feira (28), o colegiado do Banco Central terá quórum reduzido com a saída dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), em 31 de dezembro, e sem a nomeação de seus substitutos. Com os desfalques, o encontro terá participação de 7 dos 9 membros.
Até dezembro de 2025, as apostas sobre o início da flexibilização da política de juros estavam divididas entre janeiro e março deste ano. O cenário de incerteza na política doméstica, a desaceleração gradual da atividade econômica e a volatilidade do ambiente global contribuíram para maior cautela dos economistas, desencadeando uma onda de revisões nas projeções.
O economista Marco Antonio Caruso, do Santander, afirma que há dificuldade em diagnosticar a velocidade da desaceleração da economia brasileira diante de dados que trazem sinais mistos sobre o comportamento da atividade econômica. Além disso, ressalta que ainda falta clareza quanto aos efeitos concretos de medidas como a isenção do IR (Imposto de Renda) para quem ganha até R$ 5.000 mensais.
“Existe um conforto maior em manter a postura monetária como está e aguardar novos sinais”, afirma. “Muita coisa conversava com uma postergação do primeiro corte. Talvez em março o diagnóstico seja um pouco mais claro”, acrescenta.
Para Caruso, o Copom deve optar por uma comunicação muito parecida com a utilizada na reta final de 2025, sem fornecer “grandes dicas” a respeito dos passos que pretende seguir em março. Ele também prevê que a decisão seja unânime entre os membros do colegiado, até pela ausência de dois diretores na reunião.
Segundo projeção do Santander, o colegiado deverá iniciar o ciclo de cortes de juros de maneira gradual, com um primeiro movimento de redução de 0,25 ponto percentual, antes de acelerar o ritmo a partir de abril, levando a Selic a 12,5% ao ano ao término do processo.
“O Banco Central já tem tomado decisões que são sobre 2027, […] mas ainda não temos grandes sinais sobre qual será a postura fiscal em 2027, porque pode ter mudanças do Ministério da Fazenda. Isso naturalmente levaria qualquer banqueiro central a se movimentar mais devagar”, diz.
Tony Volpon, ex-diretor do BC e professor adjunto da Georgetown University, vê a demora do Copom em iniciar a queda de juros como um sinal da intenção da gestão de Gabriel Galípolo de levar a inflação ao centro da meta.
“Ele [Galípolo] não quer entregar a inflação entre a meta e o topo da banda de tolerância. Se quisesse fazer isso, já poderia ter iniciado o processo de corte de juros”, afirma.
O objetivo central perseguido pelo BC é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, o alvo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece por seis meses seguidos fora dessa margem, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
“Tudo pode mudar, mas ele [Copom] consegue usar esta reunião para abrir as portas em termos da comunicação e a reunião de março para mostrar a projeção na meta” diz Volpon.
Para o economista, a principal questão da conjuntura econômica brasileira hoje é o tamanho do ciclo de queda da Selic e o impacto dos juros no endividamento do país. Ele destaca que a conta de juros é o principal fator que tem impactado o crescimento da dívida em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).
Folhapress