Fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA após derrota leva militares a abraçarem Tarcísio

tarcisio

Quando Jair Bolsonaro (PL) partiu para os Estados Unidos sem reconhecer a derrota após a eleição de 2022, muitos militares criticaram o gesto. Essa fatia da sociedade vinha votando em peso nele desde 2018, e alguns dos seus integrantes participaram da trama golpista para tentar impedir a posse de Lula (PT).

Quatro anos depois, mesmo os que criticavam Bolsonaro voltaram a apertar 22, com adesão maciça da chamada “família militar” -integrantes ativos e inativos das Forças Armadas e seus parentes, incluindo pensionistas- à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), até porque do outro lado estava Lula, e o antipetismo segue inabalável na caserna.

O desfecho da campanha de 2026, com outra fuga de um Bolsonaro para os EUA após ser derrotado, nova contestação do resultado eleitoral e uma carta golpista e fantasiosa, provocou uma onda ainda maior de críticas entre seus apoiadores fardados.

Ao mesmo tempo, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que já era o nome favorito dos militares para uma candidatura presidencial, começou a se descolar do bolsonarismo e admitiu, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que considera tentar o Planalto ao final de seu novo mandato, em 2030.

Os dois movimentos bastaram para instalar entre militares uma adesão entusiasmada e campanha antecipada pelo governador de São Paulo, capitão da reserva do Exército que trocou a farda pelo serviço público em 2008 e entrou para a política em 2018, para ser ministro de Bolsonaro.

A reportagem ouviu integrantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, incluindo ex-comandantes de Forças e oficiais que trabalharam em diferentes governos nas duas últimas décadas. Eles falaram sob anonimato, alegando que o momento político continua instável e que suas manifestações poderiam provocar ruídos.

Um oficial-general que atuou no Congresso e em diferentes governos sintetizou a revolta com a fuga de Flávio, criticada por todos os entrevistados: deixar o país sem reconhecer a derrota nem dar satisfação aos milhões que votaram nele corresponde ao gesto do comandante que abandona sua tropa, atitude imperdoável para um militar.

Para outro oficial, a indignação com a atitude do candidato derrotado não é uma questão de política ou ideologia, mas de valores como caráter, honra, lealdade e gratidão. Uma terceira fonte disse que a decepção é maior do que o suposto heroísmo que ele tentou imprimir ao alegar que era perseguido político.

Um ex-comandante de Força declarou esperar que Lula tenha a “sabedoria de tentar pacificar o país” e cunhou uma boutade que resume o sentimento pós-eleitoral na caserna: “Menos Janja, mais Alckmin. Menos Bolsonaro, mais Tarcísio”.

O governador de São Paulo é apontado pelos entrevistados como o político mais alinhado aos valores conservadores da “família militar” e ao mesmo tempo o mais preparado para um voo presidencial, por ter servido a três diferentes governos (Dilma, Temer e Bolsonaro) e comandar o estado mais rico e populoso do país.

Mas, num meio tão corporativo e endógeno, o que sobressai na adesão a Tarcísio é seu passado militar. Como lembra um coronel recém-transferido à reserva, enquanto Bolsonaro deixou o Exército como persona non grata (livrou-se por um triz de ser expulso) e “saiu pela porta dos fundos, o Tarcísio saiu pela porta da frente, passando em concurso público”.

Para esse mesmo oficial, a formação de Tarcísio no IME (Instituto Militar de Engenharia) após concluir a Aman (Academia Militar das Agulhas Negras) e a atuação numa companhia de engenharia na Minustah (a missão de paz da ONU no Haiti liderada militarmente pelo Brasil) tornam o governador de São Paulo mais ligado ao Exército do que Bolsonaro e seus filhos.

Apesar de Tarcísio ter sido ungido por Bolsonaro e até hoje ter evitado confrontar seu padrinho político, militares apostam que o rompimento se dará no próximo ciclo eleitoral.

Na caserna vigora a avaliação de que, como em todos os estratos do bolsonarismo, os integrantes mais radicais da “família militar” optarão por continuar abraçados aos Bolsonaros, seja qual for seu líder. Mas a aposta é que, concretizada uma cisão com Tarcísio, a maioria deve aderir ao governador de São Paulo.

Mesmo oficiais que reconhecem os dois primeiros mandatos de Lula como o melhor momento das Forças Armadas no passado recente -dada a situação orçamentária que permitiu investimentos em projetos estratégicos de Exército, Marinha e Aeronáutica- optaram por Flávio na eleição recém-encerrada.

Ao antipetismo atávico se somou a revolta dos militares com o STF (Supremo Tribunal Federal), cuja atuação no julgamento da trama golpista foi considerada enviesada e alinhada ao governo Lula. Uma queixa recorrente é de que o 8 de Janeiro não teria sido um movimento golpista, mas uma “baderna” como a que movimentos sociais de esquerda já promoveram em Brasília sem consequências semelhantes.

Outra é em relação à dosimetria. Mesmo os oficiais que concordam que deveria ter havido punição aos colegas envolvidos com ruptura institucional consideram que as penas aplicadas foram excessivas.

Tarcísio também faz seus acenos aos ex-colegas de farda. Na entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o governador elogiou o trabalho do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, benquisto entre os militares e louvado na caserna por atuar pela pacificação das relações civis-militares mesmo após a trama golpista ter tido o envolvimento de integrantes das Forças Armadas.

Dos 29 condenados pelo STF no processo principal da trama golpista, 21 são militares das Forças Armadas (dois deles tiveram as penas substituídas por multas), e a maioria dos restantes era oriunda das Polícias Federal, Civil e Rodoviária Federal -isso sem contar os cinco coronéis da cúpula da PM-DF (Polícia Militar do Distrito Federal) condenados e presos por omissão nos ataques do 8 de Janeiro.

O dano à imagem das Forças Armadas decorrente desse processo levou Múcio e os atuais comandantes a trabalhar para coibir manifestações políticas e candidatura de militares da ativa, que diminuíram em relação às últimas eleições.

De toda forma, a militarização da política, crescente desde a ascensão do bolsonarismo, segue uma realidade. Como mostrou a Folha, o número de militares e policiais de forças de segurança eleitos (incluindo da reserva e reformados) cresceu em 2026 e retomou o nível recorde atingido com Bolsonaro.

Enquanto isso, continua parada no Congresso a PEC que tenta evitar que militares da ativa das Forças Armadas sejam candidatos, forçando que, ao registrarem a candidatura, sejam automaticamente transferidos para a reserva. A proposta tem forte resistência na caserna.

Folhapress

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