O senador Jaques Wagner (PT) afirmou nesta sexta-feira (24) que perdeu um pedaço do terreno de sua propriedade com construção da Via Metropolitana, rodovia projetada no governo dele, e abriu mão da indenização.
“Sobre o terreno, dá até vontade de rir, porque o terreno talvez tenha sido a única obra feita na Bahia para benefício dos baianos que não teve que pagar desapropriação. A estrada passou pelo traçado que os engenheiros acharam melhor, cortou lá um pedaço do terreno e eu digo: ‘não vou cobrar nenhuma desapropriação'”, disse o senador em entrevista à rádio Andaiá FM.
O terreno que foi vendido pelo senador em 2025 fica nas margens da Via Metropolitana, rodovia criada para ser um eixo de expansão da Grande Salvador e contratada na gestão do próprio Jaques Wagner. Ele governou a Bahia de 2007 a 2014.
O terreno, comprado em 2000 quando Jaques Wagner era deputado federal, foi vendido pelo hoje senador em 2025 por R$ 15 milhões. O contrato previa o pagamento antecipado de R$ 2 milhões, enquanto os outros R$ 13 milhões seriam pagos em permuta física no empreendimento futuro.
O terreno tinha 51 mil metros quadrados, tamanho equivalente a sete campos de futebol. Foi adquirido na época pelo preço de R$ 28 mil, cerca de R$ 130 mil em valores corrigidos. Depois de 25 anos, a área foi vendida com uma valorização de 11.400%, já descontada a inflação do período.
Na entrevista à rádio Andaiá, o senador minimizou a valorização do terreno no período: “É óbvio que tudo que valoriza em 26 anos”.
A transferência do terreno vendido foi barrada em 25 de junho por decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), como parte da nona fase da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades relacionadas ao Banco Master.
Mendonça determinou restrições a atividades econômicas, incluindo o bloqueio de contas, bens e valores de Jaques Wagner. A interrupção temporária do negócio foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Folha de São Paulo.
Nesta sexta-feira, Jaques Wagner voltou a dizer que está tranquilo com as investigações relacionadas ao banco Master.
“Como o meu nome infelizmente ou felizmente é doce, como essa base de apoio ao presidente Lula é muito forte… Em 2018 você lembra, teve a Fonte Nova, ano eleitoral, falaram que tinha superfaturamento, fizeram aquele escarcéu todo. Eu estou com minha cabeça livre, leve e solta”.
As terras compradas em 2000 pelo senador eram uma fração de terreno maior pertencente à Traneves Patrimonial, cujos sócios também fazem parte da Lagoons Empreendimentos, empreendimento residencial integrado ao projeto do novo centro de treinamento do Esporte Clube Bahia.
Em nota, a Lagoons Empreendimentos afirmou que a venda do terreno a Jaques Wagner em 2000 foi operação imobiliária regular, formalizada à época pela Traneves Patrimonial, a partir do desmembramento de uma área maior de sua propriedade.
“Trata-se de uma negociação realizada décadas antes da concepção do empreendimento Lagoons e, portanto, sem qualquer relação com o projeto atualmente em desenvolvimento. São operações distintas, realizadas em contextos temporais diferentes e em estrita observância à legislação”, disse.
O empreendimento foi anunciado em abril deste ano como o primeiro residencial de alto padrão integrado a um centro de treinamento no Brasil, em uma parceria entre o City Football Group, a QPC Incorporadora e o Grupo Terere.
Tanto o residencial como o centro de treinamento serão erguidos em área que se consolidou como um novo eixo de expansão urbana desde a inauguração da Via Metropolitana, em 2018. A rodovia liga Salvador a Camaçari, contornando o núcleo urbano da cidade de Lauro de Freitas.
Publicações do Diário Oficial da Bahia apontam que a via de 11,2 quilômetros vinha sendo estudada ao menos desde 2011, na gestão Jaques Wagner. A ideia era ter uma via alternativa à estrada do Coco, principal rodovia que liga a capital ao litoral norte da Bahia.
A obra foi viabilizada por meio de um aditamento do prazo do contrato com a concessionária Bahia Norte, que desde 2010 geria o sistema BA-093, que inclui rodovias na região metropolitana de Salvador. Na época, a concessionária era comandada pelas construtoras OAS e Odebrecht, que se desfizeram do negócio em 2021 após a crise da Operação Lava Jato.
O contrato de aditamento foi assinado por Jaques Wagner em setembro de 2014, ampliando de 25 para 30 anos o prazo do contrato de concessão do sistema BA-093. As obras físicas começaram em janeiro de 2015, na gestão de Rui Costa (PT), e foram concluídas em 2018 com investimento de R$ 220 milhões.